Fraternidade do Egito

Ao tempo de Ramsés II, no templo da deusa Hathor, em Dendera, durante um dos contatos com o mundo invisível praticados pelos sacerdotes, uma visão encheu de inquietação muitos dos presentes que a testemunharam. Nela se via uma luz imensa envolvendo o planeta, cidades desconhecidas crescendo do deserto e uma voz que repetia: “Prepare o caminho para aquele que é o Maior de Todos”.

Apresar da inquietação de alguns sacerdotes, a maioria interpretava essas mudanças como relativas ao Egito, prevendo uma nova época de grandeza futura, com a vinda de um faraó poderoso. Sêmulo e alguns poucos, entretanto, percebiam nesse contato um aviso de que grandes forças estavam desenhando um novo rumo para a humanidade.

Na verdade o que percebiam eram os acontecimentos que estavam para desencadear como parte dos preparativos que a vinda do Cristo exigia, e que o Egito estava longe de poder entender. A força e a ordem que estabeleceram aquela civilização também a aprisionaram em seus ritos e crenças cristalizados.

Sêmulo e outros sacerdotes, entretanto, sentiam no fundo de seus corações a necessidade de renovação. O povo sofrido exigia atendimento, o sistema de castas ocultava injustiças, porém poucos poderiam impor novo rumo àquela sociedade. Como modificar o orgulho daquele povo, cujos ancestrais ergueram os maiores monumentos e cidades conhecidos? Como ensinar algo novo a mentes cegas pelo conhecimento antigo sobre a vida e a morte? Como erguer as criaturas humilhadas a uma nova condição quando o próprio dirigente era erguido à condição de um Deus?

O conhecimento do retorno da alma ao mundo, a Lei da Ação e Reação eram conhecidos dos fundadores da civiliação egípcia. Porém, ao longo dos séculos, governantes e sacerdotes, desleais aos Divinos Princípios de Ordem e Justiça, turvaram a intenção e a pureza originais daqueles conhecimentos. Mas não é assim sempre? A mensagem de libertação original, perpetuada através dos pobres corações humanos, se torna instrumento de morte e condenação, exigindo uma intervenção divina para a restauração da Luz e da Ordem.

Com pensamentos dessa natureza, Sêmulo desceu os degraus do templo e, buscando no jardim o frescor da tarde, orou pedindo que a Verdade lhe fosse revelada, por mais dura que fosse.

Naquela noite, Sêmulo se preparou com os ritos costumeiros para a pequena morte, como era chamado o sono devido ao desdobramento da alma. Em Espírito, foi levado longe, distante, numa planície estrangeira, e lá ouviu: “Eis aqui onde erguerei o templo da verdade! Vede e preparai-vos para o regresso da justiça e do Amor!”

Profundamente emocionado, Sêmulo acordou e agradeceu ao Senhor de todas as criaturas pela revelação.

A partir daquele dia, procurou enxergar tudo com novos olhos, e assim foi que, já sendo amigo de Moisés, pôde sentir nele um futuro grande líder de uma nova época. Seria ele entretando aquele ao qual seu sonho se referia? Apesar de sua voz interior dizer que ainda haveria muitos séculos de preparação antes que o Maior de Todos pudesse vir, Sêmulo sentiu que, colaborando com Moisés, estava ajudando nessa preparação também.

E assim, com novo impulso e sentindo que estava agindo dentro da Lei da Justiça e Amor, Sêmulo buscou diminuir a desigualdade entre as criaturas. Se não publicamente, pelo menos dentro das paredes do Templo em que oficiava, até o dia em que cerrou pela última vez seus olhos físicos às planícies do Egito.

Em suas vidas seguintes, Sêmulo trabalhou sempre buscando libertar as criaturas da ignorância. Na época do Cristo, o reencontramos como o egípcio de um grupo de terapeutas peregrinos que, tendo ouvido falar das curas do Cristo, aprende então, através das palavras e dos exemplos do Mestre, uma nova forma de curar as criaturas de seus males psíquicos. De volta às terras egípcias, propaga a nova forma de cura, baseada na reforma íntima e na caridade ao próximo.

Ao final dessa sua vida, é chamado então a cooperar mais de perto com Cristo na libertação das almas, organizando com aqueles que foram beneficiados pelo seu amor e sabedoria uma vasta legião de colaboradores que, desde aquela época, assistem a todos aqueles que buscam usar sua sensibilidade para conhecer a Deus e a si mesmos no exercício da tarefa cristã.

Sem perder de vista a grande civilização em que aprendeu tanto, Sêmulo auxilia a todos aqueles que, desde a época dos faraós, ainda se encontram em reencarnações retificadoras.

Médium: Erulos Ferrari

Notas:

* Ramsés II foi faraó no Egito de 1304 a 1237 antes de Cristo. Seu governo entrou para a história como um dos mais grandiosos da civilização egípcia pelo período de prosperidade e vitórias militares.

*Cristo, palavra originada do idioma grego, significa “Messias”.

* Em “O Livro dos Espíritos”, a Lei de Ação e Reação está codificada na Lei de Amor, Justiça e Caridade.

*O nome Moisés significa “vindo das águas”.

*Os terapeutas peregrinos integravam a Fraternidade Essênia, fundada por Essen, discípulo de Moisés, para dar sustentação à tarefa do Messias planetário.

*A Fraternidade dos Irmãos do Egito se dedica ao fortalecimento psíquico dos aprendizes e dos discípulos. A civilização egípcia guardou muitas das reminiscências da iniciação atlante antiga.

Martha Gallego Tomaz, Histórias das Fraternidades – Ed. Frat.  Assistencial Esperança

 
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