Urania

Tudo quanto vemos não é mais do que aparência. A realidade é outra.

O sol parece girar em torno de nós outros, levantar-se pela manhã e recolher-se à tarde, e a Terra em que estamos parece imóvel. O contrário é que é verdade. Habitamos em torno de um projetil turbilhonante, lançado no Espaço por uma velocidade setenta e cinco vezes mais rápida do que a de uma bala de canhão.

Harmonioso concerto vem encantar-nos os ouvidos. O som não existe, não passa de uma impressão dos nossos sentidos, produzida por vibrações do ar, de uma certa amplitude e de uma certa velocidade, vibrações silenciosas por si mesmas. Sem o nervo auditivo e sem o cérebro, não haveria sons. Na realidade não há senão movimento.

O arco-íris abre o seu círculo radiante; a rosa e a centáuria, orvalhadas pela chuva, cintilam ao sol; a verde campina e o sulco de ouro diversificam a planície com as suas vistosas cores. Não há cores, não há luz, não há senão ondulações do éter que põem em vibração o nervo óptico. Aparências enganosas. O sol aquece e fecunda, o fogo queima; não há calor, mas somente sensações. O calor, e assim a luz, não passa de um modo de movimento. Movimentos invisíveis, mas soberanos, supremos.

Eis aqui uma forte trave de ferro, dessas que geralmente se empregam nas construções. Está colocada no vácuo, a dez metros de altura, sobre duas paredes, nas quais se apóiam as respectivas extremidades. É sólida, com certeza. No centro dela foi posto um peso de mil, dois mil, dez mil quilogramas, e esse peso enorme ela nem mesmo o sente; muito será verificar-se, com o nível, uma imperceptível flexão. No entanto, essa trave é composta de moléculas que não se tocam, que estão em vibração perpétua, que se afastam umas das outras sob a influência do calor e se aproximam sob a do frio. Digam-me, por favor, que é que constitui a solidez dessa barra de ferro? Seus átomos materiais? Certamente não, pois eles não se tocam. Essa solidez reside na atração molecular, isto é, em uma força imaterial.

Falando, de modo absoluto, o sólido não existe. Tomemos nas mãos uma pesada bala de ferro. Essa bala é composta de moléculas invisíveis, que não se tocam também. A continuidade que a superfície dessa bala parece ter e a sua aparente solidez são puras ilusões. Para o espírito que analisasse a sua íntima estrutura seria um turbilhão de mosquitos, lembrando os que redemoinham na atmosfera dos dias de verão. Aqueçamos essa bala que nos parece sólida: ela se derreterá; aqueçamo-la mais: ela se evaporará, sem por isso mudar de natureza: líquido ou gás, será sempre ferro.

Estamos neste momento em uma casa. Todas estas paredes, soalhos, tapetes, móveis e esta chaminé de mármore são compostos de moléculas que também não se tocam. E todas estas moléculas, constitutivas dos corpos, se acham em movimento de circulação, umas em torno das outras.

Nosso corpo está no mesmo caso. É formado por uma circulação perpétua de moléculas; é uma flama incessantemente consumida e renovada; é um rio a cuja borda vem a gente sentar-se, acreditando ver sempre a mesma água, mas onde o curso perpétuo das coisas traz uma água sempre nova.

Cada glóbulo do nosso sangue é um mundo (e deles possuímos cinco milhões por milímetro cúbico). Sucessivamente, sem parada, nem trégua, em nossas artérias e veias, em nossa carne, em nosso cérebro, tudo circunda, tudo caminha, tudo se precipita em um turbilhão vital, proporcionalmente tão rápido quanto o dos corpos celestes. Molécula por molécula, o nosso cérebro, o nosso crânio, os nossos olhos, os nossos nervos e a nossa carne se renovam sem descanso e tão rapidamente que em alguns meses, o nosso corpo é reconstituído no todo.

Partindo de considerações fundadas nas atrações moleculares, tem-se calculado que, em uma gotinha minúscula de água obtida com o auxílio da ponta de um alfinete, gotinha invisível a olho nu, medindo um milésimo de milímetro cúbico, há mais de duzentos e vinte e cinco milhões de moléculas.

Em uma cabeça de alfinete não há menos de oito sextilhões de átomos, seja oito mil bilhões de bilhões, e esses átomos são separados uns dos outros por distâncias consideravelmente maiores do que as suas dimensões, sendo aliás essas dimensões invisíveis mesmo ao mais poderoso microscópio. (…)

Em uma gota de água, em uma cabeça de alfinete, há incomparavelmente mais átomos do que estrelas em todo o céu conhecido dos astrônomos – armados dos mais poderosos telescópios.

Quem sustenta, no vácuo eterno, a Terra, o Sol e todos os astros do Universo? Quem sustenta essa longa trave de ferro posta entre duas paredes e sobre a qual se vão edificar vários andares? Quem sustenta a forma de todos os corpos? A força.

O universo, as coisas e as criaturas, tudo quanto vemos é formado de átomos invisíveis e imponderáveis. O universo é um dinamismo. Deus é a alma universal: in eo vivimus, movemur et sumus. (Nele vivemos, nos movemos e exitimos.)

De igual modo que a Alma é a força que move o corpo, assim o Ser Infinito é a Força que move o Universo! A teoria puramente mecânica do Universo fica incompleta para a análise que penetra no fundo das coisas. A vontade humana é fraca, em verdade, com relação às forças cósmicas. Entretanto, enviando um trem de Paris a Marselha, um navio de Marselha a Suez, eu desloco, livremente, uma parte infinitesimal da massa terrestre, e modifico o curso da Lua.

Se disseco a matéria, encontro, no fundo de tudo, o átomo invisível: a matéria desaparece, esvai-se em fumo. Se os meus olhos tivessem o poder de divisar a realidade, veriam através das paredes, formadas de moléculas separadas, através dos corpos, turbilhões atômicos. Os nossos olhos de carne não vêem o que existe. É com o olhar do Espírito que cumpre ver. Não nos fiemos no único testemunho dos nossos sentidos: há tantas estrelas acima de nossas cabeças durante o dia quantas há durante a noite.

Não há na natureza nem astronomia, nem física, nem química, nem mecânica: esses são métodos subjetivos de observação. Há apenas uma única unidade. O infinitamente grande é idêntico ao infinitamente pequeno. O espaço é infinito sem ser grande. A duração é eterna sem ser longa. Estrelas e átomos são um.

A unidade do Universo é constituída pela força invisível, imponderável, imaterial, que move os átomos. Se um só destes cessasse de ser movido pela vorça, o Universo estacaria. A Terra gira em torno do sol, o sol gravita em torno de um foco sideral, móvel também; os milhões, os bilhões de sóis que povoam o Universo correm com maior velocidade do que os projetis da pólvora; essas estrelas que nos parecem imóveis são outros tantos sóis arremessados no eterno vácuo, com a velocidade de dez, vinte, trinta milhões de quilômetros por dia, correndo todos para um fim ignorado, sóis, planetas, terras, satélites, cometas errantes… O ponto fixo, o centro de gravidade buscado pelo analista, foge à medida que o buscam, e na realidade não existe em parte alguma. Os átomos que constituem os corpos movem-se relativamente com a mesma velocidade que as estrelas no céu. O movimento tudo rege, tudo forma.

O átomo invisível é o ponto de aplicação da força.

O que constitui essencialmente o ser humano é o que o organiza, não é a sua substância material, não é nem o protoplasma, nem a célula, nem essas maravilhosas e fecundas associações do carbono com o hidrogênio, o oxigênio e o azoto; é a força anímica, invisível, imaterial. É ela quem agrupa, dirige e retém associadas as inúmeras moléculas que compõem a admirável harmonia do corpo vivente.

A matéria e a energia jamais foram vistas separadas uma da outra; a existência de uma implica a existência da outra; há talvez identidade substancial de uma e de outra.

Que o corpo se desagregue de uma só vez após a morte, ou se desagregue lentamente e se renove perpetuamente durante a vida, pouco importa. A alma fica. O átomo psíquico organizador é o centro dessa força. Também ele é indestrutível.

O que vemos é enganador. O REAL É O INVISÍVEL.

Camille Flammarion, Urania – Editora Feb

Esse post foi publicado em Entrelinhas e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.