Outras Explicações

– Por que – indagou o Dr. Inácio – não se questiona Kardec, mas se questiona o que vem depois dele?

– Boa pergunta, Doutor! – Asseverou o Instrutor. – Kardec para nós, adeptos da Doutrina, passou a ser o parâmetro, o ponto aferidor do que está ou deixa de estar, de acordo com os seus imutáveis princípios.

– Mas, se ele tivesse se equivocado em um único postulado o não estivesse certo?… É óbvio que tal não ocorreu, no entanto podemos conjecturar a respeito.

– Sim, podemos – concordou Amorim. – A Ciência, por vezes, se baseia em falsas premissas, o que acaba lhe custando muito tempo ao progresso; conceitos consagrados entravaram, por séculos, o avanço das pesquisas e novas descobertas. A Verdade, em qualquer campo, não é compatível com dogmas e preconceitos. Ainda hoje, por puro interesse teológico, os adeptos do Criacionismo e do Evolucionismo – da Gênese e de Charles Darwin – se digladiam no mundo.

– O Espiritismo é evolucionista…

– Correto. A não ser Jesus Cristo, ninguém mais foi portador de uma palavra definitiva à Humanidade! Ao Evangelho nada se acrescentará.

– Não obstante, Pedro, em sua segunda Epístola, grafou no primeiro capítulo, versículo 20: “…sabendo, primeiramente, isto, que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação…” Uma frase-libelo contra o fanatismo e o interesse de grupo!

– Voltando à questão que me foi inicialmente proposta – o que podemos considerar por antidoutrinário? – tentemos exemplificar da maneira mais simples possível. Disse Jesus: – “Há muitas moradas na casa de meu Pai…” Antidoutrinário, no caso, seria discordar da existência de muitas moradas e não…

– … dissertar sobre elas!

– Outro exemplo: a Reencarnação é princípio básico da Doutrina; é sobre ela que, praticamente, se levanta todo o edifício da Terceira Revelação… Contestar a sua veracidade é ser genuinamente antidoutrinário. Agora, especular, à luz da fé raciocinada, quanto ao seu mecanismo de aplicação, nos mais diferentes Planos da Vida, é salutar e legítimo.

– Sobre a questão da mediunidade: existem leis que regulamentam o intercâmbio, pertinentes à sintonia; leis que englobam, inclusive, o problema da ética… As meninas Caroline, Julie e Japhet, pousavam a mão sobre a cestinha e os Espíritos escreviam, praticamente sem intermediação, os fundamentos da Doutrina, em um quase fenômeno de “escrita direta”.

– Certo.

– Depois, Kardec passa a contar com o concurso de médiuns psicógrafos, que escreviam sob o impulso da inspiração dos Espíritos. Há entre um processo de recepção e outro notória diferença.

– Sem dúvida. O primeiro seria mais confiável. Digo seria, porque a confiabilidade plena ainda envolve dois outros fatores: o propósito dos encarnados e a natureza dos espíritos que, com eles, se colocam em contato.

– Na psicografia, o grau de influência do médium é maior.

– Por mais mecânico, ou inconsciente, que seja!

– O que, basicamente, difere o médium consciente do inconsciente, segundo Odilon Fernandes, é a profundidade do transe.

– Apenas uma ressalva: o médium em estado de transe profundo dispensa evidências exteriores; em outras palavras, em termos de sintonia, o médium e o espírito podem estar tão psiquicamente entrosados, que o fenômeno prima por certo refinamento, em que os estados de consciência e de inconsciência não se delimitam com clareza.

(…)

– Em qualquer grau de inconsciência, o médium está se subtraindo ao espírito; na consciência, o médium está se somando ao espírito… Deus não nos criou para a inconsciência em absolutamente nada.

– Então, meu caro Dr. Inácio – retomou a palavra o instrutor – para servir-me de uma expressão jurídica, a lei é constituída por artigos que não devem ser descumpridos e parágrafos numerosos que não podem ser ignorados! O causídico que apenas e tão-somente se estribe nos artigos, que se detalham em seus respectivos parágrafos, revela-se relapso em relação aos interesses de seu cliente. Reencarnação, Lei de Causa e Efeito e Mediunidade, dentre outros fundamentos do Espiritismo, carecem de ser mais bem estudados e compreendidos. É claro que o bom senso nos deve nortear no caminho do Conhecimento. Todavia, negar, a priori, autenticidade ao que não se admite é, no mínimo, atitude de conservadorismo contraproducente. O espírita não deve ser assim, sob pena de representar, ele mesmo, obstáculo à evolução do Pensamento Espírita.

Trecho extraído do livro Hospital dos Médiuns, de Carlos A. Baccelli pelo Espírito Domingas – Editora LEEPP

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