O Novo e o Velho

Era uma manhã ensolarada. O sol, que acabava de despontar no horizonte, iluminava a montanha coberta por uma floresta verdejante à direita e tornava azuladas as águas do mar à esquerda.

Um rapaz de seus 15 ou 16 anos caminhava pela praia nesta manhã e reparou que ela estava repleta de pequenos seres marinhos, arrastados pela maré noturna para as areias que se tornavam cada vez mais aquecidas pelo calor do sol que se elevava cada vez mais do horizonte e se tornava uma ameaça às suas vidas frágeis.

A praia de areias brancas se tornou acinzentada pela enorme quantidade destes seres conhecidos como bolachas do mar. Estes pequenos seres possuem pernas minúsculas como filamentos adaptados a caminhar dentro d’água, mas não fora dela.

Por isso não conseguiam por si só retornar ao mar. Eram milhares. Não. Milhões deles espalhados por toda a extensão da praia. Na verdade era um número incontável deles ali se aquecendo perigosamente ao sol nascente daquele horário da manhã.

O rapaz ficou admirado com a quantidade destes pequenos animais por ali, mas, segundo ele mesmo, nada poderia fazer por eles e, despreocupadamente, continuou a caminhar pelas areias macias e úmidas daquela praia em seu passeio matinal daquele domingo ensolarado.

Mais adiante, naquela praia deserta, o rapaz encontrou um senhor que deveria ter seus setenta ou talvez até oitenta anos de idade, a julgar por seus cabelos grisalhos e sua pele envelhecida e sulcada.

Aquele senhor, que pela idade andava encurvado, abaixava repetidas vezes para alcançar com as mãos os pequenos animais ressequidos, mas ainda vivos, que espalhados pela areia, esperavam pela alta da maré para sobreviverem, recolhendo alguns daqueles que apanhava e os colocava dentro de um pequeno recipiente plástico. A pequena vasilha estava abarrotada destes pequenos seres marinhos e de tempos em tempos o senhor andava até o mar com uma dificuldade evidente em sua caminhada e despejava todo o conteúdo dentro da água salgada e salvadora.

Todos aqueles animais que estavam dentro do recipiente eram devolvidos ao mar e encontravam a salvação de que necessitavam antes que o sol os matasse desidratados.

Com muita dificuldade o senhor de costas arqueadas e braços trêmulos retornava à praia para recolher mais uns dez ou doze destes pequenos seres com seu andar lento e medido.

O rapaz viu o esforço do velho senhor e seu empenho em recolher pequenas quantidades daqueles pequenos animais que não poderiam retornar ao mar sozinhos. O rapaz ficou ali a observar o trabalho daquele senhor por alguns minutos e ficou pensativo ao verificar a quantidade daqueles animais espalhados por toda a praia.

A praia estava abarrotada, o que o senhor recolhia era insignificante se comparado ao total de animais espalhados pela areia. O rapaz ficou tocado pelo esforço que o senhor empenhava naquela coleta que pouco ajudaria a resolver o problema daqueles milhões de animais.

Não se contendo, o rapaz se aproximou daquele senhor e perguntou a ele: “Por que tanto esforço para recolher apenas alguns destes animais? Não percebe que são milhões deles? Não é possível salvar todos. Vale a pena tanto esforço para salvar apenas alguns? Creio que não fará diferença devolver apenas alguns deles à água, pois são milhões deles espalhados por toda a extensão da praia.”

O velho senhor, que até então estava com seus pensamentos voltados para a sua atividade solitária, olhou para o jovem e em seguida olhou para o chão onde estavam os pequenos seres que precisavam de sua ajuda e continuou com seu trabalho de recolher um a um os animais e em seguida disse, sem parar de fazer o que fazia: “Para este – falou ele, mostrando um dos animais ao jovem – fará diferença.”

Depositando o espécime no balde, apanhou outra bolacha do mar e mostrou ao rapaz, dizendo novamente: “Para este também fará diferença.” Em seguida pegou mais uma e disse novamente: “E para este também, e este, e este, e este…” – Repetiu ele, várias vezes a mesma frase, a cada vez que pegava mais um daqueles animálculos, antes de depositá-los no recipiente que carregava com zelo.

O rapaz ficou pensativo e ao mesmo tempo admirado com o argumento simples daquele senhor, que parecia mais preocupado em prosseguir com seu trabalho do que conversar. Por alguns minutos o rapaz ficou pensativo.

Então o rapaz de cabelos descoloridos por alguma substância química que os tornava amarelados olhou para trás e mediu com os olhos a extensão da praia coberta por bolachas do mar, e depois para frente.

Pensativo ele coçava a cabeça como tentando entender o ponto de vista do homem zeloso com os animais. Alguns minutos depois era possível ver os dois, o velho e o novo, recolhendo os animais e devolvendo para o mar.

Texto extraído do capítulo Pequenas Histórias, Grandes Consequências, do livro: Os Animais Conforme o Espiritismo, de Marcel Benedeti – Editora Mundo Maior.

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